#atualidade – Porque gostamos de carros
Há uns anos, comprei um Porsche 996 Turbo em segunda mão, uma espécie de troféu depois de alguns negócios imobiliários bem sucedidos. Tinha só dois anos e custou metade do preço em novo, mas com trinta mil quilómetros era o carro inteiro, 420 cavalos e um ronco de motor que imitava o grito de acasalamento da Brigada de Trânsito (vinham logo a correr). Não era o meu primeiro Porsche nem foi o último, mas foi o melhor, mais potente, mais desafiante e inebriante que tive.
Na altura tinha outros carros, entre os quais uma Renault 4L ex-EDP que tinha comprado em leilão. E o que tinham em comum o 996 biturbo e a 4L? Ambos tinham quatro rodas, um volante, um motor (tecnicamente verdade, apesar de um ter cerca de uma dúzia de vezes mais motor que o outro – agora que me lembro, acho que o motor do limpa pára-brisas do Porsche era mais forte que o pequeno bloco da 4L).
Ambos me levavam onde eu queria ir, com entusiasmo e boa-vontade, com maior ou menor custo, debaixo de sol ou de chuva. Comprei a 4L porque era o carro ideal para ir à praia ou para sair à noite na cidade. Podia deixá-la destrancada e descansada, numa rua estreita ou num estacionamento sujeito aos muitos riscos do pessoal que arruma de ouvido com o rádio alto.
Adorava a minha 4L, que ficou desfeita depois de uma furgoneta das obras lhe saltar para cima (a chapa não era o seu ponto forte. Aliás, não tinha pontos fortes senão o encanto que tinha para mim).
Claro que também adorava o meu Turbo, que ainda me deu muitos momentos de euforia e uma ou outra multa de velocidade. É mesmo provável que tenha sido o melhor carro que tive.
Mas o que queria dizer é que gostei igualmente destes dois carros e de tantos outros, porque todos eles me permitiram ir onde queria, como queria e quando queria, sem avarias e sem problemas, com o enorme prazer de conduzir uma máquina – mais rudimentar ou sofisticada – e de sentir esse domínio, essa extensão da liberdade de movimentos e da vontade. É que a estrada, o sol na cara, o vento que entra pela janela, a paisagem que passa de lado, essas são iguais num carro como no outro.
Esse é o prazer de conduzir, o espírito automóvel, o triunfo sobre a máquina. É por isso que gostamos de carros, não como o pessoal que quer apenas uma lata que os leve de A para B, mas sim como um exercício de liberdade individual. Nesse aspecto, a minha 4L era como o meu Porsche. Ambos eram quase perfeitos nos seus diferentes géneros, os dois eram capazes de fazer-nos sentir bem. Tinham o que nós, as pessoas que gostam de carros, gostamos nos carros. E é por isso que gostamos de quase todos os carros.
LM
